Boulos, Roda Viva e a Democratização da Mídia no Brasil

Quem teve paciência e ficou acordado até mais tarde na última segunda-feira, dia 07, pôde assistir a participação do filósofo e psicanalista Guilherme Boulos, membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e pré-candidato à presidência da República pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), no tradicional programa Roda Viva, da TV Cultura, canal público de televisão afiliado ao PSDB-SP*.

Boulos, com personalidade e leitura de mundo forjadas no ambiente acadêmico e na militância em movimento social, algo novo no espectro político progressista brasileiro, se saiu de maneira inteligente, a meu ver. Fez o que se esperava: apresentou ideias e frases de efeito e não fugiu do contraponto aos argumentos de entrevistadores que mais pareciam adversários – a ressaltar, exceto a pesquisadora de Comunidades Remanescentes de Quilombos (CRQs), a historiadora Marilea Almeida, única a não cair no discurso profundamente raso, por mais paradoxal que isso pareça, “contra o Comunismo” ou em prol de uma “união nacional”, típico das correntes que circulam nos grupos da escola primária no Whatsapp.

Que o Roda Viva já viveu dias mais gloriosos, não é novidade. Ao longo de décadas, várias figuras de protagonismo na esquerda nacional e mundial já passaram pela cadeira de entrevistados. De Fidel Castro a Oscar Niemeyer. De Luis Carlos Prestes a José Saramago. Quase sempre fustigados em relação às discordâncias ideológicas, mas nunca insultados por argumentos cretinos e falaciosos, como os apresentados contra o presidenciável do PSOL.

Houve, por exemplo, quem negasse a existência de classes sociais no Brasil, reiterando o crescimento de uma economia que, se há alguns anos vinha claudicante, atualmente está absolutamente destruída por medidas impopulares nascidas de um Golpe Parlamentar-Jurídico-Empresarial-Midiático, padrasto de 12,7 milhões de desempregados com baixa ou nenhuma esperança no futuro.

Teve também quem sugerisse a junção eleitoral da esquerda com o centro e a direita, em nome de um “bem comum”, como se isso fosse possível num país neocolonial e escravagista como o Brasil. Apenas imaginem: uma coalizão entre Boulos, Alckmin, Manuela, Meirelles, Marina e Bolsonaro para salvar o nosso povo. Uma espécie de “Gambiarra Brasileira”, prima distante e estúpida da Geringonça Lusitana. Não sei como ninguém nunca pensou nisso antes…

Boulos se saiu bem, repito. Porém, ao contrário de alguns jornalistas com quem repercuti o programa, não creio que deva passar incólume e sem críticas o cristalino baixo nível e a suposta má fé de boa parte dos convidados a entrevistá-lo, sobretudo por que falamos de um jornalístico produzido por uma TV pública.

Acho grave que Boulos e qualquer outro candidato – embora apenas os de esquerda passem por essa situação – sejam inquiridos por profissionais que parecem ter saído da caixa de comentários dos portais de notícias da mídia corporativa brasileira.

De um programa de entrevistas, se espera perguntas e argumentos honestos da bancada de apresentadores, de modo que a audiência possa receber informação de qualidade, e ter, em si própria, o interesse pela pesquisa cultivado, antes de formar uma opinião embasada por fatos e não por bravatas.

A inquisição de Boulos mostra que políticos de esquerda vivem um impasse quando se colocam disponíveis para a mídia capitalista selvagem: nela, são obrigados a engolir a desonestidade intelectual nua e crua de seus antagonistas, mas tem acesso a alguma repercussão, ainda que negativa. Já na mídia independente, eles podem debater com mais liberdade, honestidade e menos tabus, porém são assistidos, ouvidos e lidos por um público menor. É o dilema de Tostines aplicado na imprensa.

Isso prova que o próximo governante de esquerda que chegar ao poder terá a obrigação de rever o modelo de comunicações no país, há pelo menos um século concentrado nas mãos de cinco grupos. Pois, como diz o jornalista Gilberto Scofield Junior, “quem é dono da fala, constrói a sua verdade, domina o discurso e convence a massa”. E o interesse de poucas famílias rentistas nunca será o mesmo do povo que trabalha.

* A TV Cultura de São Paulo há anos é comandada por governos estaduais tucanos e sempre demonstrou absoluto “cuidado” no tratamento de temas envolvendo políticos do PSDB, se comparado com autoridades de partidos adversários. Aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei.

Jornalista.

3 comentários em “Boulos, Roda Viva e a Democratização da Mídia no Brasil

  • 9 de maio de 2018 em 12:36
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    É importante pensar, agir na comunicação do país.

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  • 16 de maio de 2018 em 17:14
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    Mais um belo texto com uma boa análise. Hoje em dia é bem raro encontrar um texto assim, parabéns.
    Não tive saco para assistir a esse linchamento público que se tornou esse “programa” atualmente vejo mais o programa Voz Ativa que é bem melhor e sem baixarias.
    Que bom que ele conseguiu sair vivo. Se o presidente que for eleito apenas fizer cumprir as atuais leis que regulamentam o sistema de telecomunicações como um todo, boa parte desse turma que controla tv e rádio cai. A que ponto chegamos, cumprir a lei hoje é ser revolucionário.

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    • 16 de maio de 2018 em 19:41
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      Exatamente, Fábio. No Brasil, aplicar a Constituição é ser revolucionário. Isso mostra o quanto somos um povo chegado a privilégios. Que não possui muito apreço por Direitos e Igualdade. Por aqui, são conceitos tidos como abstratos e utópicos. Hasta!

      Resposta

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