No Brasil, jornalismo também rima com racismo

Todos os dias o jornalismo brasileiro é premiado com episódios de racismo. Programas sensacionalistas, que lucram com a pobreza e com a desigualdade obscena deste país, são os campeões neste quesito.

Porém, outros modos de expressar o racismo estão se tornando cada vez mais frequentes na comunicação, seja por meio da TV, de jornais, de sites e blogs.

Há menos de dois anos, William Waack foi flagrado se queixando de buzinas que vazavam no estúdio da TV Globo, em Washington D.C. “Tá buzinando por que, seu merda do caralho? Você é um, não vou nem falar, eu sei quem é… É preto. Isso é coisa de preto!”.

A fala causou repúdio e Waack perdeu o emprego.

Por pouco tempo. Com a entrada da CNN no país, Waack foi recompensado há poucos meses com uma contratação onde, dizem, terá cargo de chefia e um salário na casa dos seis dígitos.

Caiu pra cima, como popularmente dizemos.

Agora, a vítima da vez da imprensa é uma jornalista: Maria Júlia Coutinho.

Após passar pelo quadro da Previsão do Tempo, onde foi vítima do racismo de internautas, e pela bancada do Jornal Nacional, sonho de nove em cada dez jornalistas da TV brasileira, Maju recentemente começou a apresentar o Jornal Hoje.

E só esta semana pelo menos três colunistas da mídia oficial, Daniel Castro e Paola Zanon, do UOL, e Fábia Oliveira, d’O Dia, sequer disfarçaram seus “incômodos” com o sucesso da jornalista.

Castro e Zanon, sua colaboradora, que assinam o “Notícias da TV”, gastaram mais de dez parágrafos e um vídeo para elencar erros e um suposto nervosismo de Maju na apresentação do telejornal. Segundo a coluna, tal fato estaria incomodando os editores globais, mas foi negado pela direção da empresa.

Maria Júlia Coutinho, a Maju. Por que seu sucesso incomoda até mesmo os seus colegas de profissão? – Créditos: Reprodução/TV Globo

A pergunta diante disso é simples: alguém já viu a competência de uma apresentadora branca ser questionada com uma compilação de erros numa coluna social? Desafio qualquer um (a) que me lê a responder que sim. Desafio porque sei que, na TV brasileira, o erro branco vira meme e exemplo de espontaneidade. Não gera questionamento sobre competência.

Já Oliveira foi além. Segundo a colunista d’O Dia, o “Público não teria curtido o look da apresentadora”.

Leia-se como “o look”: o CABELO BLACK POWER de Maju.

Pergunto-me: qual o público que não gostou? Estaria a colunista medindo a minha preferência, como telespectador eventual do JH, com a sua própria régua preconceituosa?

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Não me lembro de uma campanha tão explicitamente racista como a desferida esta semana contra Maju Coutinho em sua atual posição profissional.

Já a assisti falando sobre racismo em alguns lugares. Ela vem de uma família consciente de sua condição, e, portanto, parece ter sido preparada para enfrentar este tipo de violência (se é que existe preparação suficiente).

No entanto, o que choca é a permissividade com que isso ainda é mantido, mesmo em um espaço que deveria ser o primeiro a zelar pela pluralidade e o respeito às diferenças: a comunicação de massa.

Estamos em 2019. A questão racial já é debatida abertamente em todos os espaços, da Academia à novela. O racismo é crime no Brasil desde 5 de janeiro de 1989. Portanto, há mais de 30 anos.

E em qual mundo vivem esses colunistas? Em qual mundo vivem seus superiores? Por que o sucesso de um (a) negro (a) incomoda tanta gente no Brasil? Quem somos, afinal? Um país nórdico?

Por fim, encerro este texto com uma frase que ainda não me cansei de dizer, por mais que seja dura: os (as) negros (as) que se emocionam com o Brasil e seus símbolos simplesmente não entenderam nada.

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