Elevador de serviço

O elevador de serviço é um exemplo de exclusão social no Brasil. E poucas pessoas se dão conta disso, infelizmente. Em muitos prédios residenciais, há o elevador social e outro elevador com uma placa escrita “SERVIÇO”. Quando criança, meu pai me recomendou usar sempre esse elevador. Obedeci sem perguntar o porquê.

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Ao longo da minha infância e adolescência, quando utilizava o elevador de serviço, esbarrava com algumas pessoas que trabalhavam no prédio: babás, motoristas, trabalhadoras domésticas e entregadores. E continua assim. Nunca questionei essa diferença de elevadores quando criança. E nunca, é bom deixar isso bem claro, ninguém nos proibiu – meus pais e eu – de usarmos o elevador social. Às vezes usamos, porém nós sabemos que apenas o elevador de serviço é reservado para nós. Isso jamais foi dito, mas está subentendido.

Os mais ricos estranhariam até se usássemos o elevador deles. Apesar da lei nº 3629 de 28 de agosto de 2003, de autoria do vereador Ricardo Maranhão, que diz “Artigo 1º:  Fica vedada qualquer forma de discriminação em virtude de raça, sexo, cor, origem, condição social, idade, porte ou presença de deficiência e doença contagiosa por contato social no acesso aos elevadores existentes no Município do Rio de Janeiro”, ainda assim permanece a segregação racial e social silenciosa. E continuará por muito tempo, pois infelizmente, não se discute essa separação entre elevadores.

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Essa lei é completamente obsoleta, pois no dia a dia, essa diferenciação de elevadores é uma exclusão social enraizada na nossa sociedade. Há quem diga que o elevador de serviço é importante para o transporte do lixo, em caso de obras, quando os moradores levam seus cachorros para passear ou quando estão com trajes de banho. Eu só fui entender o preconceito que está por trás do elevador de serviço quando estava na faculdade e quando estudei na Espanha, pois nos prédios residenciais onde morei, não havia o social e o de serviço. Sequer havia uma placa. Eram apenas dois elevadores ou um só. Uma vez eu disse isso ao meu pai, e ele me contou que um dia estavam fazendo manutenção no elevador de serviço e um entregador chegou. Ele era negro e meu pai o pediu para subir pelo elevador social e explicou que o de serviço não estava funcionando. Ele parou por uns instantes e perguntou se realmente poderia fazer aquilo. Meu pai disse que sim e o rapaz começou a chorar. Suas palavras foram: “Eu nunca subi pelo elevador social”.

Série Downton Abbey, passada no início do século XX (Reprodução)

Para quem já viu a série Downton Abbey, cujo primeiro episódio começa em 1912, século XX, com a notícia do naufrágio do Titanic, vemos no decorrer da série que os empregados entram e saem pela entrada de serviço. Naquela época, a classe trabalhadora pertencia à terceira classe. No Brasil do século XXI não é diferente, já que a classe trabalhadora, os mais pobres entram e saem pela entrada de serviço em muitos prédios, principalmente, nos bairros mais ricos, e utilizam o elevador de serviço.

Como disse em entrevista para a CNN Brasil, a artista e escritora portuguesa, Grada Kilomba, “O Brasil é uma história de sucesso colonial”. E, de fato, Grada tem razão, pois o Brasil atual não é muito diferente dos anos de escravidão, a Senzala é o quarto da empregada, a entrada de serviço e o elevador de serviço.

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