“Prazer, sou a filha do Brasil”

* Por Gabriella Figueredo

Muitos de vocês, leitores, não devem me conhecer. Não sabem que sou filha do porteiro e da costureira/trabalhadora doméstica. Portanto, posso dizer que sou também filha do Brasil.

Ou talvez você me conheça sim, pois pode ser que tenha me visto no site do El País. Primeiro quando contei um pouco da minha história, e depois quando respondi ao ministro Paulo Guedes, que certa vez disse que até o filho do porteiro dele foi aprovado no FIES.

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Ou pode ainda ser que você tenha me visto no Caderno Ela, de O Globo, na edição do último domingo, dia 8.

Mas se você ainda não me conhece, tudo bem. Este texto é mais uma oportunidade de me apresentar.

Tudo começou lá atrás, em uma cidade muito pequena no interior da Paraíba, quando meu pai, ainda adolescente, entendeu que a educação tem o poder de transformar a vida de alguém.

Ele, infelizmente, teve que abandonar a sala de aula para trabalhar nos campos de tomate enquanto seus primos estudavam – trabalhavam de dia e iam para a escola à noite. Meu pai contava que, às vezes, folheava os cadernos dos primos para não esquecer as palavras. Imagino seu olhar de tristeza, pois o que ele queria era seus cadernos e lápis.

Já minha mãe conseguiu estudar. Ela terminou o Ensino Fundamental com muito esforço. Seus cadernos eram papeis de pão improvisados.

Quando se conheceram e casaram, juraram que se tivessem um filho ou uma filha, ele ou ela teria uma vida melhor que a deles.

E eu cresci ouvindo todas essas histórias de dificuldades. Às vezes minha mãe ficava séria e não cansava de dizer que eu deveria aproveitar a chance de estudar. Cresci em um bairro de classe média alta do Rio de Janeiro, conhecido no mundo, entre outros motivos, pela Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

A filha do porteiro e da empregada doméstica se formou em Letras e em História da Arte. Caminhos de esperança de um Brasil que teima em segregar | Créditos: Léo Martins / Agência O Globo

Minha mãe dizia que nós vivíamos ali somente porque meu pai trabalhava. Estudava em escola pública, ganhava presentes apenas no Natal e em meu aniversário, caso passasse de ano. E com essas recomendações em mente, cresci sabendo que pertencíamos a uma outra classe.

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Foi na universidade que passei a ter a consciência do incômodo que a classe dominante, meus vizinhos, sentiam ao ver que a filha do porteiro estava cursando o Ensino Superior. É claro que eu já era consciente das desigualdades do Brasil, uma vez que desde criança recebi olhares preconceituosos e escutei comentários falsamente surpresos, com pitadas de desdém e arrogância: “Ah, vocês têm TV a cabo?”, “Você faz curso de inglês?”.

Na universidade aprendi os porquês desses olhares e comentários. Tudo vêm lá de trás, desde o fim da escravidão. Não me canso de dizer que o curso de Letras mudou a minha vida, mesmo que muitas vezes nem consiga colocar em palavras o quanto aprendi.

O importante é que o sonho do meu pai se realizou e foi além: após me ver com um diploma universitário, fui em busca de outro para mim e por ele, desta vez fora do país.

E depois de apresentar a vocês, leitores, um pequeno recorte dessa história, minha história, peculiar e ao mesmo tempo repetida em um cenário desigual como o do Brasil, espero conversar mais sobre este e outros assuntos com vocês aqui no Lado B do Rio, a partir de hoje.

* Gabriella Juvenal Figueredo é filha de Jerônimo Figueiredo e Maria José Juvenal, um porteiro e uma trabalhadora doméstica. Graças às políticas de inclusão, cursou Letras na PUC-RJ e História da Arte, na Universidade de Navarra (ESP). Atualmente apresenta o Elevador de Serviço, programa da TV Democracia, no Youtube. Estará às quintas-feiras neste site falando sobre a vida.

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