A nova variante que expõe, mais uma vez, o racismo do mundo

Fomos todas e todos surpreendidos, essa semana, com o surgimento de uma nova variante do coronavírus causador da COVID-19. Depois das tragédias vividas com as variantes Gama (surgida em Manaus, aqui no Brasil), Alfa (surgida no Reino Unido) e Delta (surgida na Índia), agora o mundo está em alerta com a Ômicron, que possui o nome mais difícil de todas. 

Ainda existem poucas informações sobre essa nova variante. Não se sabe ainda se ela é resistente às vacinas ou se ela é mais mortal. Mas o pânico em torno da sua revelação tomou conta de muita gente. Embora a OMS tenha recomendado atenção e cautela, o que temos visto, através dos meios de comunicação, é desespero e sensacionalismo. Respostas mais concretas sobre o real perigo dessa nova cepa só teremos em uma ou duas semanas. 

Embora a notícia do surgimento da Ômicron tenha sido uma surpresa, isso se deu muito mais pela forma como a notícia surgiu, com tanto pânico ao seu redor, do que pelo fato em si. É até óbvio, infelizmente, que novas variantes vão sim surgir enquanto a distribuição de vacinas no mundo for tão desigual como é hoje. 

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É unânime entre cientistas que apenas a imunização da imensa maioria da população mundial, em todos os continentes, poderá acabar com a pandemia. E acabar com a pandemia não significa necessariamente acabar com a doença, mas deixá-la sob controle, como hoje acontece com a gripe causada pelo vírus Influenza, que no passado adoecia e matava muito mais gente. 

Porém, o que vemos na prática, é o egoísmo de sempre. O egoísmo capitalista que possibilita que poucos países do norte global tenham tantas vacinas acumuladas, enquanto o sul global, principalmente o continente africano, viva uma violenta e covarde escassez de vacinas. A política de distribuição de vacinas tem sido uma política racista, que determina, mais uma vez, quem são os povos que merecem viver e os que podem morrer. É a mesma lógica que começou com a colonização, onde categorias de seres humanos foram estabelecidas e aprofundadas. 

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Outro fator que mostra esse racismo estrutural, que está na política externa e na diplomacia de quase todos os países do mundo, foi o fato de diversas nações fecharem suas fronteiras para a entrada de pessoas da África do Sul, que havia identificado a nova cepa. O Brasil, por exemplo, que não proibiu a entrada de pessoas do Reino Unido, na época da Alfa, agora se fechou para a África do Sul sob a justificativa da Ômicron. 

Racismo, desigualdade, pandemia, mortes: meme autoexplicativo (Reprodução/Internet)

E o pior: ontem autoridades da Holanda revelaram que a variante já estava lá desde meados de novembro, duas semanas antes de ser descoberta na África do Sul. É como se o país africano estivesse sendo punido por ter um bom trabalho de rastreamento da variante e por tê-la informado à OMS, como todos os países deveriam supostamente fazer. 

A pandemia da covid escancarou uma série de outras “pandemias” que nos acompanham por séculos ou décadas, como a desigualdade social desenfreada, a sobrecarregada do trabalho doméstico que afeta sobretudo as mulheres, a disparidade entre nossos estudantes que possuem ou não acesso à internet, etc. O racismo gritante entre os países é mais uma dessas “pandemias” que só se tornou visível, para muitas pessoas, nesse momento da nossa história. Mas tudo isso sempre esteve aí, devidamente registrado e documentado, porém tantas vezes ignorado.

Última informação: diante do susto com a variante Ômicron, os Estados Unidos convocaram uma reunião do G-7 para analisar o que poderão fazer. No mesmo dia a China anunciou que doará, sozinha, 1 bilhão de vacinas para os países do continente americano. O racismo e a desigualdade social se combatem com ações concretas, não com discursos bonitos.

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