Basta de transfeminicídios!

No final de 2018 eu fui pra Buenos Aires, participar de um fórum de economia feminista, que aconteceria no mesmo momento da reunião do G-20 na cidade portenha. Foi minha primeira viagem internacional e me deparei com muitas novidades, como a arquitetura marcante da capital argentina, a língua que eu não dominava nem um pouco, a comida que particularmente não gostei, o vinho que amei, etc. Uma dessas novidades, pra mim na época, foi o debate sobre transfeminicídio. 

Lembro que comprei uma blusa onde estava escrito “Basta de travesticidios y transfeminicidios”, com uma gravura representando duas importantes lideranças de lá. Fiquei na época pensando sobre como alguns debates de gênero, por lá, estavam muito mais avançados que por aqui. Outra coisa que me chamou a atenção também foi a presença ativa de homens trans nos debates sobre direitos sexuais e reprodutivos e, mais especificamente, sobre a legalização do aborto. 

Embora eu tenha comprado a blusa, confesso que demorei um pouco mais de tempo para entender o porquê de precisarmos definir especificamente algumas vezes o TRANSfeminicídio. Não gosto muito das repetidas especificações que algumas vezes acabam tendo o efeito de segregar mulheres trans e travestis no debate feminista. Mas, ao mesmo tempo, dar nomes é importante. Só podemos analisar e tratar aquilo que sabemos como chamar e que entendemos porque é chamado como tal.

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Tanto lá na Argentina, quanto aqui no Brasil, assim como na maior parte do mundo, o assassino de mulheres trans por sua condição de gênero possui uma escalada a mais de crueldade. Como se matar uma mulher por vê-la enquanto uma propriedade, um objeto, já não fosse covardia o suficiente, percebemos padrões ainda mais assustadores na violência contra mulheres trans e travestis. 

Lana de Holanda: “Basta de travesticidios y transfeminicidios”
Lana de Holanda: “Basta de travesticidios y transfeminicidios” (Arquivo Pessoal)

Há cerca de duas semanas Roberta, uma mulher trans em situação de rua, teve seu corpo incendiado vivo, no Recife. Ela segue viva em estado gravíssimo e, até o momento, teve que amputar os dois braços. 

É um movimento teoricamente difícil, mas necessário, apontar como o prefixo “trans” possui a capacidade de ampliar o feminismo, englobando vidas, corpos e realidades que muitas vezes não seriam considerados. No caso do feminicídios, uma tragédia social que segue atravessando a vida de tantas mulheres e tantas famílias – segundo dados do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o número de casos de feminicídios cresceu 127% nos últimos dois anos -, falarmos também dos transfeminicídios é darmos voz à vidas que são perdidas e que nunca foram ouvidas. 

Denunciar a realidade extremamente violenta a que estão submetidas as mulheres brasileiras, cis e trans, é uma tarefa urgente dos nossos tempos. A igualdade de gênero é possível, mas mexe em estruturas muito enraizadas de vigilância e controle. Precisamos romper com essas estruturas. Precisamos de um horizonte onde as mulheres possam ter o direito básico de não sentirem constantemente medo. Um horizonte feminista.

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*Créditos da foto: Mídia Ninja

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