É a guerra de classes, minha gente

É comum ouvirmos, cada vez mais, que discutir classes é algo do passado. Não são poucas as vozes que ecoam reivindicando que, supostamente, “o que importa” é falar de gênero e de raça, como se estes pudessem, de alguma forma, se descolar da classe. Está se normalizando, por exemplo, a frase “racismo é estrutural”, e ele é, de fato. Mas o que tantas vezes não se diz é: qual é a estrutura que sustenta o racismo entranhado nas sociedades? Qual a estrutura que foi e é fundamental para o patriarcado? Qual a estrutura que permitiu a formação e manutenção das colônias, da escravidão e do sexismo? 

É importante refletirmos sobre isso, pois o “fator classes” até se esconde, mas não se cala. Quando a elite econômica (burguesia) se mostra raivosa ao ver o pobre tendo acesso a itens básicos, como comida de qualidade, é o ódio de classe falando em voz alta. No último fim de semana diversos representantes da direita, entre parlamentares, empresários e jornalistas, ficaram publicamente enfurecidos em saber que nas ocupações do MTST se come camarão. A repercussão da foto de Wagner Moura na Ocupação Carolina de Jesus, comendo um acarajé, mostrou como o ranço dos ricos está mirado na mínima oportunidade dos mais pobres. 

Nos últimos anos, felizmente, os debates sobre o capitalismo, a colonialidade, o racismo, o patriarcado e a lgbtfobia se complexificaram bastante. Não é mais aceitável que alguém de esquerda diga ou defenda que “só o que importa discutir é classes”. A classe trabalhadora – cada vez mais difícil de ser identificada enquanto tal, devido à uberização do trabalho e ao advento do “empreendedorismo” – é negra, é feminina e possui diversas outras características sociais, biológicas, subjetivas, etc.

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Mas, na tentativa de expandir e aprofundar os debates sobre diversas lutas, acabou se apagando ou escondendo o debate de classe. A quem isso pode interessar? 

O Brasil é o quinto país em número de feminicídios no mundo. A maioria dessas vítimas são mulheres negras e pobres. Os jovens negros mortos pelo Estado brasileiro são praticamente todos pobres, além de favelados e periféricos. Aqui, no país que mais mata pessoas LGBTs no planeta, as mais pobres são as maiores vítimas. E a pobreza, não podemos nos esquecer, não é obra do acaso. Ela é consequência política. Na maioria das vezes ela é projeto. As 19 milhões de pessoas que estão passando fome no Brasil, neste momento, não estão nessa situação por acidente, mas por neoliberalismo. 

Preocupação com pessoas revirando lixo é menor do que a de se comer bem em um assentamento MST. Diz muito. (Reprodução)

É exaustivo ter que falar da fome. É exaustivo ter que permanecer denunciando, dia após dia, o genocídio da juventude negra. É exaustivo gritar pela vida das mulheres. Uma rotina de sobrevivência é exaustiva, eu sei. Mas é a nossa única possibilidade hoje. 

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E não tem como fazer isso de forma séria, de forma qualificada, sem reconhecermos que vivemos uma guerra de classes. Uma guerra feita para massacrar os pobres, uma guerra arquitetada para criar um exército de reserva de mão de obra barata e precarizada. Uma guerra feita para manter a boa vida dos mais ricos, enquanto nossa cabeça é pisada para que não possamos subir ao andar de cima.

A guerra de classes é permanente, ela é a barbárie. O fascismo e o liberalismo são apenas suas ferramentas. 

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