Em Santa Teresa, fascista não se cria

Santa Teresa é meu bairro favorito no Rio. Infelizmente não é onde moro, mas é onde eu me sinto em casa nessa cidade. O Largo dos Guimarães é a minha concepção de lugar perfeito: arquitetura antiga, som de pássaros, barulho do bonde, cinema, bares, gente se divertindo, crianças e famílias passeando. Santa Teresa é o Rio fora do Rio, assim como Paquetá também é. Lugares incríveis que insistem em mostrar o que a nossa cidade já foi, e mais: o que ela ainda poderia ser. 

Porém, toda essa aura bucólica de Santa Teresa tem sido ameaçada não é de agora. Lembro quando eu me mudei para o Rio, no início de 2016, e logo nos primeiros passeios pelo bairro histórico me deparei com os postes com avisos feitos pelos próprios moradores pedindo mais “segurança”, mais “policiamento” ou apenas avisando para as demais pessoas terem cuidado com a região. 

Fazendo uma pesquisa rápida vi informações assustadoras. O Bar do Serginho, tão tradicional entre os moradores, foi assaltado três vezes dentro de um período de apenas uma semana, no ano de 2017. É absurdo. A onda de violência urbana, que sabemos ser uma realidade já consolidada no Rio de Janeiro, não afeta apenas a economia local, prejudicando principalmente os pequenos comerciantes. Isso afeta a cultura, a sociabilidade dos moradores locais, o turismo, a saúde emocional e o senso de confiança que as pessoas possuem (ou deixam de possuir) entre si. 

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Diante do quadro de violência, o governador-fantasma Cláudio Castro inaugurou no último fim de semana o programa Bairro Presente (que já está em mais de 30 locais da cidade) em Santa. Aqui, temos uma questão delicada e que não oferece respostas simples: o governo parece oferecer uma resposta para a população, que obviamente quer, sim, se sentir segura. Porém, a presença de forças policiais sob uma lógica estruturalmente racista e que operam a “guerra às drogas” (que na prática é uma GUERRA AOS POBRES), é capaz de realmente oferecer segurança? Ou o que se cria é uma ilusão, uma cortina, que a longo prazo, num território cada vez mais refém das milícias, pode se mostrar ainda mais perigosa para os comerciantes e moradores? 

Como disse, não existem respostas simples. 

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O apelo popular por segurança pública é legítimo e não pode ser ignorado. Pelo contrário, precisa ser sim respondido. Mas chamou a atenção no fim de semana, durante o lançamento do Bairro Presente, a presença do deputado estadual Rodrigo Amorim. Ele é conhecido por ter quebrado a placa de Marielle, numa das cenas mais grotescas dos últimos anos. Ele também é lembrado por possuir algum grau de envolvimento com grupos milicianos. Fora isso, no geral, ele não é reconhecido por quase nada. Seu trabalho na Alerj é medíocre, muito aquém da quantidade expressiva de votos que recebeu em 2018. E provavelmente, justamente por conta da pequenez do seu trabalho legislativo, ele tentou surfar na “onda do policiamento” em Santa Teresa. Recebeu vaias e foi expulso pelos moradores do bairro, que são ferrenhos defensores da democracia. 

Inauguração do programa de segurança comunitária em Santa Teresa teve fascista tentando surfar na onda (Marcos Porto/Agência O Dia)

Santa Teresa é mais que um bairro turístico e boêmio. Santa Teresa é um respiro, é um sopro de vida no meio de uma cidade cada vez mais adoecida. Por isso os moradores precisam de soluções do Poder Público para seus problemas. Porém, se faz urgente que uma nova política de segurança pública seja construída no Rio de Janeiro, para que toda a população fluminense possa, enfim, saber o que é ter o mínimo de paz e de perspectiva.

No próximo sábado, dia 23, os moradores de Santa irão realizar um ato em homenagem à memória de Marielle e em repúdio ao fascismo. Será às 11:00 no meu lugar perfeito: o Largo dos Guimarães. 

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