Por um Feminismo Trans-inclusivo

Sempre que estou fazendo parte de alguma mesa de debate, de algum espaço de troca e de escuta, eu conto como se iniciou minha militância: foi na luta feminista. Foi no feminismo que eu comecei a pensar e entender como operam as relações de poder, as opressões, o patriarcado. E foi também, através do feminismo, que eu comecei a me entender anticapitalista. Um sistema que se baseia na desigualdade e na exclusão, como o capitalismo, é estruturalmente um sistema oposto às lutas feministas. 

Portanto, como podem perceber, o feminismo se tornou central na minha vida. Lutar por uma sociedade radicalmente mais justa, onde o respeito, a autonomia, a segurança e a dignidade de todas a mulheres seja alcançada – e com isso, que essa mesma sociedade possa se um lugar também mais justo, mais seguro e mais digno para todas as pessoas – se tornou um dos meus nada fáceis objetivos na vida. 

E, como é óbvio para muitas pessoas (mas não para algumas): não é possível construir uma sociedade radicalmente feminista sem que as mulheres trans e travestis estejam juntas, construindo as frentes de batalha contra todas as imposições e violências de gênero. Um feminismo que ouça e acolha todas as pessoas trans (inclusive os homens trans, que possuem diversos apagamentos e silenciamentos das suas demandas por direitos sexuais e reprodutivos) é urgente! Um feminismo onde mulheres cis e trans possam estar juntas, lado a lado, lutando para construir um mundo melhor para elas mesmas e para todas as outras que virão. 

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Porém, o feminismo não é um conto de fadas, onde todas as mulheres são amigas e farão absolutamente tudo em harmonia umas com a outras. Feminismo é política. E política é, por si só, um terreno árido, onde dialogar e articular são tarefas desafiadoras. Portanto, aqui, não proponho amizade entre todas as mulheres. Tampouco estou falando de sororidade, que é um termo que eu não trabalho e não uso, por, na minha visão, ser mais uma palavra que de certa forma romantiza e essencializa o que é ser mulher. 

Como ter sororidade com racistas? Como ter sororidade com burguesas, capacitistas, gordofóbicas, transfóbicas? O que proponho é a boa e velha solidariedade. A solidariedade que se estende à todas as mulheres da classe trabalhadora, a todas as mulheres que, por diferentes motivos, foram e ainda são continuamente violadas, marginalizadas e oprimidas. 

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E a solidariedade feminista não pode ser irrestrita. Se não reconhecermos as mulheres que ajudam a operar esse sistema de morte, onde as mulheres mais pobres e racializadas são massacradas, estaremos perdidas. Damares Alves, Margareth Tatcher, Carla Zambelli, são alguns nomes que não terão minha solidariedade. Assim como todas as mulheres que, através do seu lugar de poder e dos seus discursos, ajudam na manutenção e na legitimação da estrutura criada pelos homens: uma estrutura que exclui e mata todo dia, o tempo todo. 

Feminismo para todas e também por todas e todes. (Oriel Frankie/Pexels)

Mas, justamente por essa solidariedade feminista não ser irrestrita e desprovida de consciência de classe e de raça, ela precisa ser fortalecida entre todas as mulheres e todas as pessoas gênero-diversas, que são rotineiramente vítimas do machismo, da misoginia e da lgbtfobia. Fazer ativismo por um feminismo que exclua mulheres trans e travestis, por exemplo, seria o equivalente a defender, anos atrás, um feminismo sem as mulheres negras. É o tipo de coisa que sabemos que existiu mas que, por motivos óbvios, não deve se repetir nem prosperar. 

O caminho que o feminismo nos leva não pode ser o da vergonha, pessoal ou coletiva. Feminismo é também sobre orgulho, sobre ter ciência de que a jornada que fazemos, e as sementes que plantamos, fortalecerão outras mulheres, por mais diferentes que essas mulheres possam ser de mim. Feminismo é sobre a mulher que eu sou e a mulher que eu não sou. A exclusão não faz parte de um horizonte radicalmente feminista. E o ódio precisa existir sim, desde que seja o ódio de classe, o ódio revolucionário, que nos guie numa luta onde todas as estruturas sejam mudadas, pois não podem existir sociedades feministas no capitalismo. 

O feminismo não precisa ser só para todas, mas também por todas. Por todes. 

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