Um levante contra o feminicídio

O último ano de nossas vidas tem sido fortemente atravessado pela pandemia de covid. É um vulcão de sensações, como dor e revolta, que tem nos atingido diariamente diante do número absurdo de mortos e do genocídio cometido pelo Governo Bolsonaro. E, ao mesmo tempo em que temos que lidar com a pandemia, temos também que enfrentar outras questões históricas que atravessam nossa sociedade, como a violência policial, a água imprópria para consumo, os problemas no transporte público, a falta de moradia digna e, também, o feminicídio e a violência contra as mulheres. 

Não é novidade que nós vivemos numa sociedade machista, onde o patriarcado é um sistema que opera em todos os âmbitos da vida, influenciando negativamente a vida de todas as mulheres. E, junto com o racismo e o capitalismo, se forma a tríade perfeita para um mundo extremamente desigual, onde a exploração e as opressões, de raça, gênero e sexualidade se desdobram em várias outras, resultando em incontáveis violências vividas por homens e mulheres. 

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Quando pensamos nas violências de gênero e, mais especificamente, na violência contra as mulheres, o feminicídio é a ponta do iceberg. É o lado mais explícito e trágico, mas que tem como base a linguagem sexista, as “piadas” que constantemente desvalorizam as mulheres, a sobrecarga do trabalho doméstico, a dependência financeira, etc. O feminicida não é um monstro sem alma, mas um homem que chegou ao nível máximo de desumanização da mulher. 

Se a mulher é entendida como um objeto – e a sociedade endossa esse entendimento diversas vezes, seja no entretenimento, na política, nas relações familiares, nas relações trabalhistas, etc – então, teoricamente, se pode fazer o que quiser com ela, afinal objetos são objetos. Objetos não são pessoas. 

E as feministas estão, já décadas, afirmando o básico: mulheres são pessoas, mulheres são seres humanos. Avançamos nesse entendimento, mas não o suficiente. Mulheres negras e indígenas, mulheres trans e mulheres lésbicas ainda são encaradas, mesmo que às vezes de forma inconsciente, como menos mulheres ou mesmo como menos humanas. 

As mulheres trabalhadoras – sejam as que possuem empregos informais e/ou precarizados e também as trabalhadoras domésticas – também possuem sua humanidade diminuída no dia a dia, enquanto são exploradas pela engrenagem econômica que usa e descarta seus corpos. 

Mulheres do Brasil inteiro se unem na campanha ‘Levante Contra o Feminicídio’ (Mídia Ninja)

Pensando nisso tudo, e entendendo a importância de dar um basta ao feminicídio e em tudo que ele acarreta para a nossa sociedade, diversas mulheres ao redor do Brasil decidiram se levantar e dizer NEM PENSE EM ME MATAR! Esse é o mote da campanha do Levante Feminista Contra o Feminicídio, uma articulação de mulheres que está acontecendo em todo o Brasil e que conta com militantes, ativistas, organizações do movimento feminista, parlamentares, artistas, intelectuais, etc. São centenas de mulheres, em todas as regiões do país, unidas para pensar em formas de enfrentar o feminicídio e suas raízes. 

A vida das mulheres está constantemente em risco. Portanto, a vida das mulheres é constantemente lutar e resistir. E fazemos isso por nós mesmas, mas também em respeito às que vieram antes nós e pelo legado que precisamos deixar para as que vierem depois. Estamos cansadas. Mas não aceitaremos nem uma a menos! 

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